Entrevista – Débora Reis fala sobre o espetáculo “Hebe”

Quando a atriz e cantora Débora Reis entra no palco, o público precisa dizer pra si mesmo “não é a Hebe, é uma atriz”. A semelhança da artista com a apresentadora é tocante e o espírito do musical transforma a plateia em auditório e toca cada um com uma saudade ainda muito fresca dessa mulher que se tornou a Rainha da TV Brasileira. Com uma preocupação muito detalhada, inclusive usando vários vestidos que foram mesmo de Hebe Camargo, o musical, que tem texto de Artur Xexéo e direção de Miguel Falabella, conta a trajetória da diva, desde a infância até o estrelato como apresentadora. Em entrevista ao Guia de Tetro, Débora Reis falou sobre o espetáculo e sobre o carinho que vem recebendo do público.

Foto entrevista Hebe

Guia – Antes deste trabalho você já havia interpretado a Hebe no musical ‘Rita Lee Mora ao Lado’. Você foi convidada por causa desse outro espetáculo?

Débora – Não. Eu tive que fazer testes como todo mundo. E eu nem sei se quando eu entrei aqui para fazer o teste o Miguel já sabia do outro musical. Eu não sei se ele sabia que existia uma “Hebe” por aí (risos). Mas a Hebe que eu fazia lá era um pouco mais caricata. Então não foi a mesma que eu fiz aqui para ele. No texto que a gente tinha no teste ela era bem mais jovem. Na mudança da Carol Costa (que faz a Hebe jovem) para mim, ela tem 20 anos. Então eu fiz um texto mais leve, uma voz mais suave. Quando eu soube que o musical seria sobre toda a trajetória dela eu já percebi que não ia caber fazer aquela mesma Hebe. Então eu fiz um teste comum, como todo mundo, e o Miguel não falou nada da outra peça, não questionou. Nós nem tocamos nesse assunto.

Guia – A Hebe se foi há pouco tempo e o público dela ainda está aí. É muito perceptível que o carinho da plateia por ela ainda está presente ali, como se o publico ainda fosse um auditório. Como você sente isso?

Débora – No começo eu fiquei na dúvida se o público ia comprar essa Hebe de cara. Mas é impressionante! Assim que eu entro no palco a reação é imediata! Eu acho que as pessoas já vêm para o teatro com esse espírito. Ontem estava aqui a Silvia Abravanel, filha do Silvio Santos. Ela se emocionou, dizendo que, conversando comigo de perto, vinha a Hebe mesmo na cabeça dela. As pessoas compram a ideia de que quem está ali é a própria Hebe, e isso é muito bacana. Algumas pessoas já me perguntaram se eu não acho que rola uma energia da própria Hebe. O que eu sempre falo é que existe muito trabalho de observação, uma construção artística da personagem com muito trabalho de ator por trás. Mas de certa forma, eu criei sim uma relação com ela. Pra mim, ela deixou eu fazer esse trabalho, ela me escolheu, ela topou. Então, eu sempre peço permissão a ela e sempre agradeço por poder interpretá-la. E essa experiência só trouxe coisas boas pra minha vida pessoal. Quando eu comecei a interpretar a Hebe, comecei com a brincadeira de dar selinho em todo mundo e fui registrando tudo no Face. Tem selinho com famosos, com amigos, com a família. Agora eu tenho um álbum “Selinhos de Hebe, O Musical” no Facebook.

Guia – A semelhança com ela, no palco, realmente impressiona!

Débora – Mas você sabe que isso surgiu sem querer? No ‘Rita Lee Mora Ao Lado’ não ia ter uma Hebe. Era pra ser apenas uma cena rápida de beijinho com a Rita. O primeiro selinho da Hebe foi a Rita Lee que deu e depois isso acabou virando uma marca dela. Aí alguém falou que não tinha muita cena pra Hebe, tinham apenas três frases. Alguém poderia ler? Eu fui ler. Lembrei do tom de voz dela, dei uma imitada e a galera riu pra caramba. O diretor percebeu que lá tinha uma Hebe, mas ninguém achava que eu era fisicamente parecida. Eu fui ficando parecida. Hoje em dia, neste espetáculo, eu intensifico isso – o narizinho um pouco mais pra baixo, uma boquinha mais assim (faz um biquinho), dou uma fechada no olho. Eu faço meio que uma máscara facial. Mas eu não fico me vendo no espelho. É como se eu estivesse vendo ela na minha frente e eu tento imitá-la. Eu vi tudo o que tinha de vídeo disponível no youtube. Ela nova, tem pouca coisa. Tem um vídeo em preto e branco dela cantando com o Agnaldo Rayol – uma cena que a gente faz na peça, de um filme do Mazzaropi. Mas só passa ela cantando na escada e é bem antigo – anos 50. E tem mais um vídeo dela cantando com o Ivon Curi. São poucos registros em vídeo dela morena. Mas vendo os vídeos eu fui a copiando. Ela faz uma coisa com o dedo, tem uns gestos que ela repete. Eu peguei e fui colocando onde eu consegui. E o resto veio. O engraçado é que vem mesmo. Acho que está no nosso inconsciente porque a gente viu muito a Hebe na TV.

Guia – Essa homenagem à Hebe acabou sendo também uma homenagem à mulher brasileira? Porque ela era uma mulher forte e, com certeza, influenciou muita gente.

Débora – Sem dúvida. Fica sim uma mensagem de empoderamento da mulher. Como ela era forte! Em alguns momentos ela escolheu o amor ao trabalho, mas logo mudou de ideia. Percebeu que nenhum homem valia mais do que seus programas de TV e seu canto. Ela tinha sim um lado família. Queria estar casada. Mas ela também batia o pé. Ela era uma mulher muito à frente do tempo dela. Naquela época, qualquer mulher que fizesse cinema, música, rádio, TV estava à frente do seu tempo. Quem assiste ao musical, com certeza sai com essa convicção da mulher forte que ela era. Todo mundo comenta.

Guia – O Miguel Falabella vem se tornando um dos nomes que estão firmando o estilo ‘Musical’ no Brasil. Como é fazer parte desse trabalho com ele?

Débora – O Miguel tem um cuidado estético muito grande. O ‘time’ do Miguel é maravilhoso. Ele corta o que ele acha que não vai servir, o que vai deixar uma barriga… Ele não tem dó. Ele chega a cortar até cenas que estão muito legais mas que não cabem mais no espetáculo. Ele corta sem pena nenhuma, o que eu acho maravilhoso. Eu não gosto de peças muito longas. Aqui, o primeiro ato é curtinho, o segundo também. É um espetáculo ‘papo rápido’. O Miguel também é um ótimo diretor de ator. Ele também atua, então fala direto com o ator. Em pouco tempo ele comunica o que tem que comunicar e você tem que pegar, porque ele não vai repetir. Você tem que chegar em casa e lembrar o que ele falou, tem que anotar, porque ele não vai te lembrar de novo. Ele foi muito paciente comigo. Demorou um pouco pra eu ligar a chavinha. Eu fiquei com medo umas duas semanas mas ele falou que uma diva não podia ter medo. Afinal, uma diva é uma diva. Depois a chavinha virou. Eu fui até de mini-saia num ensaio pra me sentir mais poderosa! Fui de salto alto – porque a gente geralmente ensaia com roupa de ballet e eu resolvi ir vestida de uma forma que me sentisse mais feminina. A Hebe era muito feminina, estava sempre muito arrumada. A gente ensaiava de tênis e não combinava. Quando eu coloquei o salto, algo mudou! Eu precisava daquilo. E o Miguel vinha me pedindo “cadê essa mulher?”. Mas logo depois ele começou a me elogiar, começou a ficar satisfeito e a coisa foi. Mas eu encarnei definitivamente a personagem quando o ensaio chegou aqui no teatro, porque antes a gente ensaiava em outro espaço. O palco faz muita falta nos ensaios. A gente precisa do palco e do vestir a roupa. Quando eu pisei no palco, a Hebe tomou conta.

Serviço:

Hebe – O Musical
Temporada até 17 de dezembro de 2017.
Apresentações: Qui, 21h | Sex, 21h | Sáb, 17h e 21h | Dom, 18h
Local: Teatro Procópio Ferreira R. Augusta, 2823 – Cerqueira César – Tel: 3083-4475

1.12.2017
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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