Entrevista – Ricardo Corte Real fala sobre o espetáculo “Colegas”

Três jovens com síndrome de Down fogem de um instituto com o carro do jardineiro para irem atrás de seus sonhos e acabam se envolvendo em uma aventura emocionante e cheia de surpresas. Essa história sensível já foi contada no cinema pelo premiadíssimo filme ‘Colegas’. Agora ela chega aos palcos. O diretor Leonardo Cortez reuniu três atores com síndrome de Down – Ian Pereira Retz, Giulia Souza Merigo e João Alberto Simões Junior – para viverem essa emocionante aventura no teatro.

Também estão no elenco Adriana Domite Mendonça, Daniel Dottori e Ricardo Ferreira Corte Real. Ricardo, que interpreta o jardineiro do instituto, conversou com o Guia de Teatro e falou sobre a emoção de estar nesse projeto.

© João Caldas Fº

Credito: João Caldas

Guia – O filme Amigos foi um grande sucesso. Como foi o processo de transformá-lo em uma peça de teatro?

Ricardo – A ideia de chamar o Leonardo Cortez foi perfeita , porque ele trabalha com pessoas com síndrome de Down há muitos anos. É um trabalho que eu já tive a oportunidade de assistir algumas vezes. É uma mágica o que ele faz com essa molecada. É muito legal, é emocionante. Já vi umas três ou quatro apresentações. Já vi eles fazendo Shakespeare e foi um trabalho lindo. Eu já trabalho com o Léo há alguns anos – trabalhei na televisão e no teatro também. Na verdade, foi ele que me trouxe pro teatro. Eu estreei no teatro há cinco anos, aos 60, por causa do Léo. Eu era um bicho de televisão e de rádio. Eu acho muito legal a ideia de contar essa história no palco. Primeiro porque eu sou cada vez mais fã do teatro e segundo porque, assim, estou tendo a oportunidade de participar do espetáculo. Não posso afirmar com certeza, mas acho que esta é a primeira vez que se mistura num elenco, atores com e sem síndrome de Down. Fazer essa mistura está sendo ótimo e eu estou adorando. Estamos ensaiando há duas semanas e o resultado está se cristalizando numa coisa bem bacana.

 

Guia – O filme é um “road movie”. Como vocês encararam o desafio de transportar essa sensação da viagem, das mudanças, para o palco?

Ricardo – O cenário vai ser uma coisa móvel, modular. O carro em que eles fogem será uma Kombi e não mais um Karmann Ghia, como no filme. Roubaram a Kombi do jardineiro! Vai ter um caminhão no cenário também, porque uma hora eles vão pedir carona para um caminhoneiro. Tem também o instituto onde eles estão e de onde eles vão fugir na kombi. Não dá para reproduzir todos os cenários do filme, é claro, mas todos os ingredientes estarão lá. O jardineiro de quem eles roubam a Kombi é um cara que adora os garotos e tem uma relação super legal com eles. Ele fica chateado porque roubaram a Kombi mas entende a situação. Tem também a diretora do instituto e o policial que vai lá fazer as perguntas para saber o que aconteceu.

 

Guia – Mas a relação dos três com o cinema continua existindo na peça, com as citações de filmes famosos que eles fazem a todo tempo, não é?

Ricardo – Sim. Eles adoram cinema. Eles trabalham em uma DVDteca dentro do instituto e passam o dia vendo filmes e decorando as falas dos atores. Aí, quando eles partem para essa aventura, essas frases vão sendo repetidas de acordo com as situações.

 

Guia – Trabalhar com atores com síndrome de Down é, com certeza, desafiante, e deve ser um ótimo exercício teatral.

Ricardo – É uma coisa única e bem diferente de tudo o que eu já vi na vida. Eles têm um ritmo diferente. O Léo é um craque. Ele teve que encontrar a forma de trabalhar no ritmo dos atores. E eu acho que essa talvez seja a grande graça do negócio. O tempo dos atores com Down é diferente. Tem cena em que estão só os três, tem cena em que estão só os outros atores e tem cena que mistura todo mundo. São essas que eu estou louco para ver na hora que ficarem prontas. A gente está se dando muito bem. Acho que o Daniel, a Drica e eu temos um perfil muito parecido em relação a essa troca com os atores com Down e acho que o Léo nos escolheu propositadamente. Além de atores, somos pessoas que gostamos de gente, temos empatia com o ser humano em geral, e ainda mais com esses garotos, onde que a grande diferença está em serem tão especiais e carinhosos. Está sendo um laboratório para todo mundo – para nós e para eles. Eles estão numa animação muito grande. A Giulia Merigo foi a única dos três que esteve no filme. Para os outros é uma aventura completamente nova. É um espetáculo pra se atirar. E é um laboratório sem rede de proteção!

 

Guia – E com certeza será especial para o público também, não é?

Ricardo – Com certeza! Quando você vai assistir a um espetáculo com atores com síndrome de Down é muito comum ter uma plateia formada por familiares, amigos ou por pessoas que tenham algum tipo de envolvimento com o tema. Então todo mundo já vai com o espírito aberto, para entender que aquela não é uma peça profissional. Mas nós estamos colocando a peça em cartaz no circuito teatral. É um espetáculo aberto, profissional, para todos aqueles que gostam de teatro. Essa vai ser uma experiência nova e impactante para todo mundo – público e atores. É uma aventura de verdade!

 


Serviço:

Colegas no teatro
Em cartaz a partir de 13 de outubro de 2017
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 20h
Local: MASP Av. Paulista, 1578 – Bela Vista – Tel: 3149-5920

29.9.2017
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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