Entrevista – Gustavo Rodrigues fala sobre o espetáculo “Bent”

O holocausto nazista ficou marcado pelo genocídio covarde de milhões judeus. Mas outras minorias também sofreram com a barbárie comandada por Hitler. Com texto de Martin Sherman e direção de Luiz Furlanetto, a peça Bent mostra a situação dos homossexuais durante o regime nazista. Em entrevista ao Guia de Teatro, o ator Gustavo Rodrigues fala sobre o espetáculo que chega como um alerta para o momento de intolerância que vivemos atualmente no Brasil.

Augusto Zacchi e Gustavo Rodrigues 4 - Foto de marcelo Faustini

Augusto Zacchi e Gustavo Rodrigues em “Bent”

Guia – Bent mostra a situação dos homossexuais na época do nazismo, certo?
Gustavo – A peça mostra que havia um preconceito dentro do preconceito. Até no campo de concentração os homossexuais sofriam preconceito dos outros presos, de todas as minorias. A gente ouve muito sobre a história dos judeus, mas também iam pros campos de concentração, ciganos, criminosos, uma série de minorias. E de todas essas minorias o homossexual era o mais maltratado.

Guia – Além do texto do Martin Sherman, que outras referências vocês usaram para compor o espetáculo?
Gustavo – A gente viu todos os filmes relacionados ao nazismo. Também tem um livro muito interessante chamado “Em busca de sentido” do Viktor Frankl, que conta a saga de um judeu que conseguiu sobreviver no campo de concentração. Foi uma ótima referência.

Guia – Como é a relação dos personagens da peça com o momento histórico? Como a trama e a História se entrelaçam?
Gustavo – A peça começa numa noite histórica – A Noite das Facas Longas. O nazismo tinha duas polícias, a SA e a SS. Os jornais da época estavam exibindo algumas caricaturas, insinuando que a SA tinha uma vertente gay. Quando Hitler se tornou “o juiz supremo do povo alemão”, ele prendeu e executou Ernst Röhm, um oficial da SA que havia colaborado na sua ascensão. Um dos motivos argumentados foi que o oficial era homossexual. Eles exterminaram a SA e o homossexualismo passou a ser considerado crime na Alemanha. O personagem protagonista da peça, Max, interpretado pelo Augusto Zacchi, é homossexual. Ele é preso numa noite quando está tendo um caso com um oficial da SA. A caminho do campo de concentração, Max conhece Horst, meu personagem, um homossexual ativista muito íntegro, que defende sua ideias com muita coerência. Eles voltam a se encontrar no campo de concentração, onde Max articula para Horst ir trabalhar com ele carregando pedras. Isso tem muita relação com o mito de Sísifo, pois eles têm que carregar uma quantidade enorme de pedras de uma lado para o outro e, quando isso acaba, levá-las todas de volta novamente. O segundo ato é com eles carregando as pedras. E aí vem toda a questão emocional. A peça relata uma história de amor muito bonita entre os dois. Nesse ato acontece a cena antológica em que eles fazem amor sem se mexer, num momento de descanso do trabalho.

Guia – A peça chega num momento turbulento do Brasil.
Gustavo – O Brasil é, em 2017, o país recordista de crimes contra travestis e homossexuais. Só isso já é uma coisa muito forte. Outra coisa importante é que a peça, além de falar do homossexualismo, fala das minorias e da intolerância. Mostra que as crises geram totalitarismo e as pessoas ficam muito inclinadas a ter atitudes extremas como, por exemplo, linchar uma pessoa que cometeu um furto. Tudo é resolvido no “olho por olho, dente por dente”. Isso dá vazão a outros problemas que acabam fortalecendo uma ditadura. Esta é uma peça que fala sobre a liberdade e sobre a privação dessa liberdade. É um chamado para discutir as questões sociais, para tentar entender como o homem pode ser tão cruel com seu semelhante. Isso não pode ser esquecido. Não dá para levar a vida falando o que se quer sem pensar nas consequências que as coisas têm. Tem que haver responsabilidade. Diante de uma crise ideológica e econômica, como a que ocorreu na Alemanha daquela época, as pessoas acham que vão se proteger nesse totalitarismo. Cada um quer salvar o seu. Mas não é assim. Acaba-se entrando numa enrascada que é ruim para todo mundo.

Guia – E qual é a reação do público?
Gustavo – A peça tem uma condução emocional muito grande, tanto na dramaturgia quanto na interpretação dos atores. Isso cativa muito o público porque o coloca na posição de encarar os fatos dessa intolerância, dessa injustiça que poderia acontecer diante de qualquer aspecto humano, e não só em relação à homossexualidade. O público começa a torcer pelos personagens, por aquela relação, e, ao final, sai muito tocado. Eu acho que esta é uma peça diferente. Ela é texto, ator e o público. Acho que o teatro perdeu um pouco essa possibilidade de conduzir emocionalmente o público, de ter uma catarse. Esta é uma peça que gera uma grande catarse.

Guia – Há quanto tempo Bent esteve em cartaz no Brasil?
Gustavo – O espetáculo esteve em cartaz no Rio há dez anos. Tem seis anos que a gente não apresenta. Em São Paulo a gente só fez no Sesc da Avenida Paulista, em 2007, mas foi para um público bem reduzido. Então agora a gente pensou em voltar. É uma época muito pertinente para falar de intolerância, com todos os problemas que a gente está enfrentando. É muito importante lembrar a que ponto o ser humano pode chegar numa situação extrema de crise.

Serviço:

Bent
Estreia: 10 de agosto
Apresentações: Quinta-feira, 21h
Local: Teatro Frei Caneca R. Frei Caneca, 569 – Shopping Frei Caneca

31.7.2017
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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