Entrevista – Antonio Fagundes fala sobre a comédia “Baixa Terapia”

Três casais debatem seus problemas cotidianos numa terapia de grupo, mas sem a terapeuta por perto. Esse é o enredo da peça ‘Baixa Terapia’ do dramaturgo argentino Matías Del Federico, que mais uma vez reúne Antonio e Bruno Fagundes no palco. A comédia arranca muitos risos da plateia, mas faz pensar como poucas. O Guia de Teatro conversou com o ator Antônio Fagundes.

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Crédito: Caio Gallucci

Guia – A que se deve a profundidade ímpar dessa comédia?

Fagundes – A gente elencou outro dia, brincando, pelo menos vinte temas que a peça aborda. Tem uma frase que eu sempre uso, uma brincadeira – mas que na verdade funciona: “uma boa peça de teatro é aquela que faz o público pensar cinco minutos até o estacionamento”. Esta nossa peça faz mais, porque são tantos os temas… Não é um doutorado, não é uma tese. E a peça não tem a pretensão de resolver todos esses problemas. Mas o fato de ela levantar tantas questões, faz a plateia pensar por bem mais do que cinco minutos.

Guia – Numa época de tanta exposição das pessoas, a peça consegue falar de uma intimidade que ainda é provocante.

Fagundes – Eu acho que tem muito a ver com essa coisa da internet. A internet acabou um pouco com a privacidade das pessoas. Mas a gente ainda tem uns resquícios, uma sobra de vergonha na cara (risos). Tem coisas que a gente não gostaria de contar, que a gente não gostaria de mostrar e, por mais invadidos que a gente seja durante o nosso dia a dia, ainda é surpreendente ver alguns assuntos sendo tocados em cena. Então eu acho que é isso que a peça aborda, esse momento de transição em que a gente está, onde a privacidade não existe mais… mas ainda existe um pouquinho. Ela ainda resiste, eu diria. A peça toca nesse ponto quando põe três casais que não se conhecem, sem uma orientação profissional, para falar de problemas que são comuns – criação de filhos, ciúme, vício. Não são problemas excepcionais e eu acho que a peça toca a plateia por causa disso, por esse reconhecimento, não só da época em que a gente está vivendo, mas também da forma como a gente está tentando lidar com os nossos problemas.

Guia – A estrutura do texto é muito interessante. Lembra um pouco o humor do Woody Allen.

Fagundes – A peça, dramaturgicamente, é matemática. Ela tem coisas que, se a gente não obedecer, não dão certo. Nada nela é gratuito. Tudo que acontece ali sempre vai estourar em algum momento, lá na frente. E além de ela ter situações muito engraçadas, que são a base de momentos cômicos bons, ela tem piadas pontuais muito grandes. O Woody Allen também trabalha assim. Ele trabalha com uma situação engraçada no geral, mas consegue pontuar piadas muito boas. E a peça tem umas vinte, trinta piadas. Ele abre, dialoga e fecha. E faz isso com piadas pontuais. Você, que já está rindo da situação, ri ainda mais das piadas dessa situação. É uma situação geral formada por várias pequenas situações.

Guia – Vocês montaram uma pequena plataforma dentro do palco e a peça se passa ali. É como um palco dentro do palco?

Fagundes – O que acontece em cena é teatro puro. O que é o teatro? É uma história que você pára e conta. Teatro, em grego, é ‘o que se vê’. E o que você está vendo? Você vê o que a gente quer te mostrar. Então a gente rompeu com a estrutura da peça, porque em todos os países onde ela foi montada foi respeitado o gabinete – uma sala, com portas. As outras montagens têm basicamente os mesmos móveis que a nossa, mas tem três paredes fechando a caixa. É quase uma maquete. É como se a gente dissesse “nós vamos nos restringir a isso, presta atenção aqui que tem coisas boas acontecendo”. A gente abriu e assumiu que é um jogo de teatro, até porque a gente respeita a palavra. E sobra a palavra, o ator e a sua relação com a plateia.

Guia – A parceria com o Bruno, seu filho, ainda continua depois deste espetáculo?

Fagundes – O Bruno está com mil projetos além do Baixa Terapia. Ele está ensaiando uma peça no SESI que vai estrear em maio, baseada no livro do William Golding, O Senhor das Moscas. A direção é do Zé Henrique. E ele já tem um outro projeto que é uma peça que ele comprou nos Estados Unidos, linda, por sinal, e que parece que também quer fazer com o Zé Henrique. Então, ele já está seguindo outro caminho. A gente tinha se comprometido a fazer pelo menos três peças juntos e já fizemos.

Guia – As outras duas peças que vocês fizeram juntos – Tribos e Vermelho – eram mais densas. Agora, uma comédia.

Fagundes – Veja que coisa engraçada. Nós estamos lotados, e o tipo de divulgação que a gente fez é o mesmo. A gente não tem dinheiro de patrocínio. O tipo de produção também é na parceria, como a gente sempre fez. A gente abriu o ensaio, como a gente abriu nas outras peças. Temos os bastidores que podem ser visitados pela plateia, como nas outras peças. Enfim, o processo está sendo o mesmo. Mas o fato de ser uma comédia já faz uma diferença enorme. Vermelho e Tribos foram muito bem, mas a gente não teve uma resposta tão rápida quanto a gente tem com a comédia. E eram textos incríveis. Eu acho que é maravilhoso a gente ter uma resposta rápida na comédia, mas seria maravilhoso também se a gente pudesse ter essa resposta em textos um pouco mais densos.

Serviço:

Baixa Terapia

Local: TUCA – R. Monte Alegre, 1024 – Tel: 3670-8455

Apresentações: Sex 21h30, R$60 | Sáb 20h, R$80 | Dom 19h, R$70 – Classificação:14 anos

3.5.2017
 

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