Entrevista – Ary Fontoura fala sobre seu novo espetáculo “Num Lago Dourado”

Clássico do cinema internacional, com Katharine Hepburn, Henry Fonda e Jane Fonda, “Num Lago Dourado” conta a história de Norman Thayer (Ary Fontoura), um professor aposentado que, prestes a completar 80 anos, vai com sua esposa Ethel Thayer (Ana Lucia Torre) passar as férias em sua casa de verão às margens do paradisíaco Lago Dourado.

Ana Lúcia Torre e Ary Fontoura e elenco em “Num Lago Dourado”

Em seguida chega Chelsea (Tatiana de Marca), a filha do casal, que sempre manteve uma relação muito tensa com o pai, em companhia de seu futuro marido Bill Ray (André Garolli) e de seu enteado Billy Ray Jr (Lucas Abdo).

O casal espera que os idosos cuidem do adolescente enquanto viajam para a Europa. Inicialmente, Norman se incomoda com a presença do jovem, mas, em pouco tempo, o garoto se torna o filho que ele nunca teve. O Guia de Teatro conversou com o ator Ary Fontoura, que falou sobre a nova montagem teatral do texto.

Guia – Não dá para falar de “Num Lago Dourado” sem lembrar do filme que foi super premiado. Como foi esse retorno ao texto original para montar a peça?

Ary – Este texto já foi montado em teatro no Brasil nos anos 80, logo depois do filme, com o Paulo Gracindo, com direção do Gracindo Júnior. Eu assisti à peça e, naquela época, ela me pareceu muito bem colocada no tempo e no espaço. Um espetáculo interessante que trabalhava com paisagens projetadas, buscando um pouco o clima visual do filme. Nesta nossa montagem, nós buscamos o texto anterior ao filme, o texto que deu origem ao filme.

A temática é a mesma, não se mexe em nada. É uma peça que inclusive está atualizada, não é absolutamente datada.

O tema é a família – um tema eterno – que possibilita aos atores realizarem um excelente trabalho. E o que nós precisávamos para que essa peça fosse montada de uma forma teatral por excelência? Precisávamos da sensibilidade de um diretor como o Elias Andreato, que sempre prioriza a figura do ator. E por isso, há dois meses, nós estamos fazendo um trabalho aqui onde o conjunto da obra é muito importante, mas que resulta unitariamente em cada personagem que deve ser absolutamente dissecado. E nós começamos a ver que, diferentemente do filme, embora a temática fosse aproximada, no teatro prevaleceria o grande trabalho para a qual a peça evidentemente foi feita. A adaptação cinematográfica obedece bem ao texto porque é do próprio autor, mas não tem grandes saltos, não tem o fator externo no filme. A peça também se restringe à casa, mas o tratamento que o teatro dá à obra é diferente.

Guia – Quem são as pessoas dessa família e como a relação entre elas ajuda na construção desses personagens para o teatro? 

Ary – Na realidade, a família deles se constitui pelo casal e uma filha. Não tem mais ninguém. O que acontece é que todos os aspectos que existem dentro de uma família estão colocados dentro da obra. Ele é um personagem desajustado, um homem muito duro que tem uma dificuldade incrível de externar seus sentimentos. Já a mulher é diferente, é o contraponto de tudo. E a filha é a vítima dessa relação de 48 anos. A filha tem 40 anos, mas são 40 anos amargurados porque nunca teve o que necessitava ter, uma verdade absoluta sobre o que ela significava naquela família. Por que ela podia externar seu amor para o pai e ele não? Por que ele era um homem tão duro? É aí que surge o trabalho do intérprete e, evidentemente, da direção. O Elias é um bruxo das sensações, das emoções, e trouxe à tona uma série de coisas. Nós tivemos palestras homéricas e continuamos tendo dentro desse trabalho, sobre outras vivências que incidem verdadeiramente no trabalho da peça em si. Família é família. Seja bem ou mal constituída, os problemas sempre acontecerão.

Guia – E quem é o Norman, seu personagem?

Ary – Ele era professor em uma Universidade. Ele se encanta pelo garoto que chega e acha que pode interferir na educação do menino, com insinuações sobre o que ele faz, de como é o seu lazer, o que é a sua vida como jovem. Quantos jovens hoje em dia não têm um intercâmbio entre si?  Daí ele vai vendo que o vazio da existência do garoto é um fato e que isso é o resultado da educação que ele está tendo, de uma mãe ausente que não quer a presença dele – porque o menino só atrapalha a vida dela – e de um pai separado que busca desesperadamente constituir um novo lar com uma mulher que tem uma série de problemas. Essa mulher é a filha dele, Norman. E ela não quer se casar, porque o casamento dos próprios pais não foi bom pra ela.

A vivência, o lar que ela teve não era aquele que ela gostaria. A finalidade do Norman é abrir a cabeça do garoto, mas com isso ele acaba modificando a sua própria forma de ver as coisas. A gente não critica a situação, mas a gente expõe.

Guia – Independente do filme, é bom beber no texto original. O teatro é sempre o teatro.

Ary – É muito bom fazer uma peça onde a palavra é o mais importante. Quem vier assistir ao espetáculo levará muita coisa daquilo que nós estamos tentando passar.  O texto em primeiríssimo lugar. A palavra, que é a nossa grande arma.

Desde que eu comecei – tenho 65 anos como ator – eu escuto que minha profissão vai acabar, que o teatro vai acabar. Que a profissão de músico vai acabar. São 7 notas musicais mas a toda hora tem uma melodia nova. Então, tudo vai se renovando, de uma maneira ou de outra sendo substituído aqui e ali, e o teatro, sobretudo, permanecendo.

Guia – E num espetáculo desse tipo essa renovação vai acontecendo a cada ensaio, certo?

Ary – É claro que cada espetáculo constitui uma novidade, mas é nos ensaios que as grandes contribuições vêm. Os problemas vão sendo colocados na mesa e uma família já vai se constituindo, conjugada com o trabalho. É muito bom

isso. O elenco é ótimo, maravilhoso, muito bem escolhido, mas eu me detenho muita na direção porque eu acho que esse é um espetáculo assinado, é de diretor. Se eu tiver a possibilidade de desenvolver aquilo que o Elias realmente quer, eu sinto que meu trabalho estará no caminho certo. Há determinados vícios adquiridos através de outros trabalhos – na televisão, por exemplo – onde você é praticamente obrigado a vir com tudo pronto. É um trabalho cruel, com um sistema solitário em que você tem que resolver o personagem em casa… Qual é a forma de reciclagem? É voltar às origens.  É botar óleo na máquina. Eu vou continuar fazendo meu trabalho na TV porque também é muito interessante, com encontros ótimos.

Mas é no teatro que você encontra verdadeiramente a raiz de todas as coisas e dessa paixão que a gente tem pela profissão de ator.


Serviço:

Num Lago Dourado
Local: Teatro Renaissance
Apresentações: Sex 21h30, R$80 | Sáb 21h30, R$80 | Dom 18h, R$80
Temporada: 8 de abril até 2 de julho

4.4.2017
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

1 Comentário
  • Maude Galvanin

    Um espetáculo imperdível. Seja jovem…solteiros…casais ou idosos….fala sobre a vida de uma forma descontraída. As dificuldades de relacionamentos. As e diferentes formas de enfrentar as limitações da idade.
    Ary Fontoura com um gesto ..uma expressão diz muito. Ana Lúcia doce e amante da vida está espetacular ..toma conta do palco….brilhante…Tivemos a felicidade de encontra-la e saber da peça …..pena que maravilhas como essas ficam muito longe de Maringá

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